sexta-feira, 14 de maio de 2010

O Mestre da Vida


As loucuras e desvirtuamentos completos do mundo atual, podem, de certa forma, serem comparados ao que se passa em um interessante filme produzido em 2006, dirigido pelo cineasta George Gallo. Nele, o veterano ator Armin Mueller Stahl interpreta o pintor russo Nicoli Seroff, já aposentado e extremamente desiludido com os rumos que a arte da pintura tomou em nosso tempo. O ator coadjuvante Trevor Morgan faz, por sua vez, o papel do jovem John Talia Jr., que deseja de toda maneira dedicar a sua vida àquela arte.

O melhor do filme, cujo título em português é “O Mestre da Vida” (Local Color), parece não ser exatamente a química criada e estabelecida entre um homem idoso, cansado e que vive isolado e um adolescente em pleno vigor de sua juventude, ansioso por aprender a pintar com um expert no assunto. Ao contrário, o que se evidencia é o mundo tresloucado atual, em que qualquer coisa feita com qualquer objeto é imediatamente aceita como sendo “arte de vanguarda”, um “insight criativo” ou uma “descoberta incrivelmente inovadora”.

Relutando por anos a retornar ao métier, por julgá-lo desfigurado e sem sentido, Seroff – depois de receber um novo sopro de entusiasmo por conta da companhia do jovem aprendiz que não só o acompanha como também mora na casa do velho pintor por um bom tempo - resolve aceitar um convite para fazer parte de um júri em um festival de pinturas da pequena cidade onde mora. Ao entrar no ambiente onde as “obras” estão expostas e ver as primeiras duas que encontrou pela frente quase dá meia volta e vai embora, balançando negativamente a cabeça diante daquilo que considerou uma verdadeira atrocidade a que muitos chamam de arte.

No primeiro caso, ele se depara com duas rodas dentadas. Indaga ao autor do “trabalho” sobre o significado daquilo e ouve como resposta que se trata de “uma visão filosófica do movimento”, demonstrando que colocadas em rotação as rodas “se movimentariam mutuamente”. No segundo caso, aproximou-se de um sujeito que apreciava com deslumbramento total um quadro que ele próprio pintara, com toda a extensão da tela pintada em preto, sem nenhum outro traço. Resolveu perguntar ao deslumbrado artista o que significava aquela “pintura” toda em preto, ouvindo a explicação de que se tratava da “bidimensionalidade do tempo”.

Arrependido por ter aceitado o convite, comentou que, diante do que vira, não levaria muito tempo para um sujeito encher um balde de urina e exibi-lo no Metropolitan de Nova York, sendo tal ideia apontada por quem a criou como arte pura e por quem a visse como algo extremamente criativo. Aí não teve dúvidas, abandonou o lugar imediatamente, imaginando que não sobreviveria aos próximos exemplos se ali permanecesse.

Em outra cena marcante e hilária, exibe para o grande amigo e expert em pintura, Curtis Sunday, vivenciado pelo ator Ron Perlman, uma série de desenhos que mostravam pinceladas aleatórias, aparentemente sem nenhum nexo ou sentido. A cada desenho, diante de um Curtis enlevado, embevecido e maravilhado pela espetacular sequência de quadros que via à sua frente, ouvia as mais estapafúrdias explicações sobre o que os artistas que os pintaram queriam dizer. Um transmitia “amargura e tensão”, o outro trazia um “que” de paixão e êxtase, um terceiro certamente significaria o advento de uma nova mentalidade mundial, etc., e assim por diante, até o último dos pequenos quadros.

Seroff o interrompeu e disse que, na verdade, todos aqueles desenhos haviam sido feitos por um grupo de crianças excepcionais, a quem ensinava pintura como forma de solidariedade e terapia. Não que as pinturas dos meninos não tivesse razão alguma, mas estavam longe de guardar todos aqueles significados demorada e detalhadamente analisados pelo amigo expert em arte. Seroff, a própria esposa de Curtis e o jovem aprendiz John Thalia tiveram um ataque de riso tão duradouro e intenso que por pouco não perderam o fôlego e morreram. Este, talvez, seja o melhor momento do filme.

Mas não só a pintura encerra tais episódios. Todas os gêneros de arte, de uma maneira geral, estão enfrentando situações que estranhamente insistem em “evoluir” para um empobrecimento quase que total, chegando em alguns casos, a provocar vexames. Outro dia li em jornal da capital um artigo sobre as “criações” de um artista “multimídia”. O trabalho do cara pálida mostrava cadeiras feitas com galhos rústicos de árvore, sendo que a parte destinada ao assento era visivelmente bem desconfortável. Mas nem por isso deixou de ser saudado pelo articulista “crítico” como sendo “uma incrível e maravilhosa tendência da arte moderna voltada para a elocubração e compreensão de possíveis caminhos para o bem-estar e o mundo interior de cada um, blá, blá, blá...”. Fiquei imaginando como os possíveis compradores daquelas cadeiras iriam se sentar nelas, com aqueles espetos de pau que estavam no assento todos voltados para cima e demonstrando serem itens “altamente penetrantes”.
É, acho que o mundo mudou mesmo e com ele também a arte se modificou. Nós, que nos acostumamos a apreciar artistas menores como Rembrandt, Renoir, Da Vinci, Monet e tantos outros desta estirpe, é que estávamos errados.

Um comentário:

  1. Olá Mazzini...assisti "O mestre da vida". Um belo e inquietante filme. Muito bons seus comentários. Recomendo o filme. Talvez possa ser encontrado, ainda, em boas locadoras. abraço

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